Colas de base aquosa: guia para escolher e especificar

As colas de base aquosa usam a água como veículo do polímero e são frequentes em embalagem, madeira, papel, têxtil e laminação. Esta página explica como formam a ligação, que famílias existem, onde se aplicam, que critérios pesam na escolha, que problemas surgem em produção e que informação preparar antes de pedir orçamento.

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O que são colas de base aquosa e como funcionam

Numa cola de base aquosa, o polímero que cria a ligação está disperso em água, normalmente sob a forma de uma dispersão ou látex. A água serve apenas para transportar o polímero e aplicá-lo. Só depois de sair da linha de cola, por absorção no substrato ou por evaporação, é que a ligação se forma. Por isso, a velocidade de produção, o tipo de substrato e a forma de secagem fazem parte do desempenho da cola, tanto quanto a química.

Nas dispersões, as cadeias de polímero ficam encerradas em partículas de dimensão submicrométrica. À medida que a água evapora, essas partículas têm de se fundir, através da interdifusão das cadeias, para originar uma película contínua. [1]

Esta forma de criar a película explica as limitações mais conhecidas do sistema. A menor resistência mecânica e a sensibilidade à água das películas de base aquosa estão diretamente ligadas ao processo de formação da película, e costumam ser a razão pela qual ficam aquém das películas de base solvente. [1]

Ao contrário das colas termofusíveis, que são aplicadas fundidas e solidificam ao arrefecer, uma cola aquosa depende de a água ter para onde ir. Superfícies fechadas, camadas espessas e ambientes húmidos tornam a secagem mais exigente. Para enquadrar a família no conjunto das tecnologias disponíveis, pode consultar o guia geral de adesivos industriais.

Principais tipos de colas de base aquosa

O termo cobre várias químicas com comportamentos diferentes. A tabela resume as famílias mais procuradas e o que pedir ao fornecedor em cada caso. Os dados concretos de desempenho dependem sempre da formulação e da ficha técnica do produto.

FamíliaPerfil geralO que pedir ao fornecedor
Dispersões de acetato de polivinilo (PVAc)Muito usadas em materiais porosos e celulósicos, como madeira e papelInformação sobre resistência à água e classe de durabilidade, se aplicável
Dispersões acrílicasUsadas em autocolantes, laminação e várias ligações de películaSubstratos testados, aspeto da película e comportamento em ambiente húmido
Dispersões de copolímeros de etileno e acetato de viniloAlternativa para embalagem e ligações de papel e cartãoVelocidade de secagem e adequação à sua máquina de aplicação
Dispersões de poliuretano (PUD)Poliuretanos dispersos em água, em geral com emulsionante internoSistema de um ou dois componentes, condições de secagem e substratos
Colas de origem natural (amido, dextrina, caseína)Tradicionais em papel, cartão e rotulagemConservação, viscosidade de trabalho e limpeza dos equipamentos

As dispersões de poliuretano merecem uma nota própria. Para além de reduzirem o teor de compostos orgânicos voláteis na formulação, oferecem flexibilidade elevada, excelente resistência à água, boa formação de película e morfologia ajustável. Trata-se de caraterísticas desta família, não de uma regra para todas as colas aquosas. [2]

Onde se utilizam por indústria

As colas de base aquosa aparecem sobretudo onde pelo menos um dos substratos deixa passar a água ou onde a película final precisa de ser flexível. Exemplos por sector:

  • Embalagem: fecho e formação de caixas de cartão, sacos de papel, tubos e núcleos de cartão, rotulagem.
  • Madeira e mobiliário: colagem de painéis, juntas de madeira maciça, folheados e revestimentos de bordos.
  • Papel e artes gráficas: lombadas de livros, encadernação, laminação de papel e película.
  • Têxtil e não tecidos: ligação de fibras, acabamento, revestimento e laminação de tecidos.
  • Calçado e pele: montagem de componentes, ligação de espumas e palmilhas.
  • Construção: fixação de revestimentos de piso, painéis e isolamentos.
  • Interiores de veículos: laminação de espumas, tecidos e películas decorativas.

Se a sua linha trabalha a velocidades muito elevadas ou com substratos totalmente impermeáveis, vale a pena comparar com outras tecnologias, nomeadamente as colas termofusíveis, antes de fixar a escolha.

Como escolher uma cola de base aquosa

Comece pelo processo e só depois pela química. Uma sequência prática de verificação:

  • Substratos: porosidade, absorção, tratamento superficial e limpeza. Em superfícies fechadas, a água tem de sair por outro caminho.
  • Método de aplicação: rolo, pistola, cortina, cabeça de aplicação ou manual. Define a viscosidade e a estabilidade que a cola tem de ter.
  • Tempo aberto e tempo de prensagem: ligam-se ao ritmo da linha e ao tempo disponível para a água sair.
  • Secagem: com ou sem calor, com circulação de ar ou em ambiente de armazém. A secagem é parte da especificação.
  • Exposição do produto final: humidade, condensação, água corrente, temperatura, contacto com gorduras ou químicos.
  • Requisitos regulamentares e de higiene: peça ao fornecedor os documentos que existem para a sua aplicação.

A secagem influencia o resultado final. Num estudo com películas de dispersões de poliuretano, a evaporação lenta da água seguida de aquecimento a 50 °C levou a uma maior organização das estruturas em forma de bastonete dos segmentos rígidos. A estrutura da película depende, portanto, da velocidade de evaporação e da temperatura de secagem. Se pretende alterar as condições da linha, peça ensaios com o novo regime. [2]

A dimensão das partículas também conta. Num estudo sobre formação de película a partir de dispersões aquosas, a redução do tamanho caraterístico de partícula de cerca de 2,2 µm para cerca de 140 nm fez baixar a temperatura mínima de formação de película de 128 °C para 80 °C. É um exemplo de que o tamanho de partícula é uma das variáveis que determinam a temperatura necessária para a película se formar. Não se trata de um valor transferível para outra cola. [3]

Quando a ligação vai estar exposta a água ou humidade, confirme a classe de durabilidade exigida pela sua aplicação. A classe D3 é indicada para interiores com exposição frequente e de curta duração a água corrente ou condensada e/ou forte humidade, e para exteriores sem exposição às intempéries. A classe D4 é indicada para interiores com exposição frequente e prolongada a água corrente ou condensada, e para exteriores expostos às intempéries mas protegidos por um revestimento superficial adequado. [4]

A classificação D1 a D4 não se obtém ensaiando peças produzidas na própria fábrica. A norma DIN EN 204 exige provetes montados e ensaiados como descreve a DIN EN 205. Ao comparar propostas, peça o relatório de ensaio correspondente à cola e ao método descritos, em vez de aceitar uma declaração genérica. [4]

Problemas frequentes e como investigá-los

A maior parte das reclamações em produção resulta da água que não saiu como previsto ou da forma como a película se constituiu. Investigue por esta ordem: substrato, quantidade aplicada, tempo de espera, condições de secagem e condições de armazenamento da cola.

  • Ligação fraca ou deslizamento no arranque: verifique se há água retida entre substratos pouco porosos, se o tempo de espera é curto ou se a quantidade de cola é excessiva.
  • Película que não coalesce ou fica pulverulenta: verifique a temperatura da zona de secagem e do substrato, e pergunte ao fornecedor qual a temperatura mínima de formação de película da cola.
  • Empenamento ou ondulação em papel e cartão: costuma estar ligado a excesso de água aplicada. Reveja o gramado e a absorção do substrato.
  • Cola que engrossa, forma pele ou separa no depósito: reveja condições de armazenamento, contaminação e tempo de utilização. Peça a orientação do fornecedor.
  • Embranquecimento ou perda de adesão em ambiente húmido: ver abaixo.

O embranquecimento e a perda de adesão em contacto com água têm explicação conhecida. Durante a formação da película, tensioativos de baixa massa molar podem migrar para a interface entre a película e o ar. Isso reduz propriedades finais como a resistência à água e a permeabilidade ao vapor de humidade, e pode causar embranquecimento por água e perda de adesão. Pergunte ao fornecedor se a formulação foi pensada para a sua exposição à humidade e peça ensaios nessas condições. [5]

O que preparar antes de pedir orçamento

Quanto mais completa for a informação inicial, menos iterações de amostras serão necessárias. Reúna:

  • Substratos de ambos os lados da ligação, com acabamento superficial, tratamentos e fornecedores, se houver variações.
  • Equipamento de aplicação e parâmetros atuais: tipo, quantidade aplicada, velocidade da linha.
  • Condições de secagem disponíveis: tempo, ventilação, calor, espaço entre aplicação e prensagem.
  • Exigências do produto final: resistência mecânica, flexibilidade, exposição a água e humidade, temperatura de serviço.
  • Pergunte que documentação o seu cliente ou sector exige e peça ao fornecedor os relatórios de ensaio, as fichas informativas do produto e as declarações aplicáveis.
  • Cola atual, se existir, com o problema que pretende resolver e a frequência com que ocorre.
  • Consumo anual estimado, formato de embalagem preferido e condições de armazenamento no local.

Com estes dados, peça ao fornecedor que indique que ensaios recomenda em linha e em laboratório, e por que ordem. Avalie as propostas com base nos resultados obtidos nas suas condições de produção, não apenas na ficha técnica.

Guias desta secção

Perguntas frequentes

Uma cola de base aquosa é sempre menos resistente à água do que uma cola de solvente?

Em regra, a formação de película das dispersões torna-as mais sensíveis à água do que as películas de solvente. Existem, porém, formulações, como certas dispersões de poliuretano, desenvolvidas para boa resistência à água, que devem ser validadas com ensaios na sua aplicação. [1][2]

Porque é que a secagem altera o resultado da colagem?

Porque a película só se forma quando a água sai e as partículas se unem. A velocidade de evaporação e a temperatura influenciam a estrutura final da película. [1][2]

Posso confirmar a classe de durabilidade D3 ou D4 com ensaios feitos na minha fábrica?

Não. A classe é atribuída com provetes preparados e ensaiados segundo o método da norma, por isso peça ao fornecedor o relatório correspondente. [4]

Quando devo considerar colas termofusíveis em vez de colas aquosas?

Quando a água não consegue sair, por exemplo com substratos impermeáveis, ou quando a linha exige fixação imediata. Compare as duas tecnologias nas suas condições, começando pelo guia de colas termofusíveis.

Fontes

  1. Ionic Inter-Particle Complexation Effect on the Performance of Waterborne Coatings - PubMed Central (NCBI, NIH)
  2. Morphology Control in Waterborne Polyurethane Dispersion Nanocomposites through Tailored Structure, Formulation, and Processing - PubMed Central (NCBI, NIH)
  3. Sustainable Waterborne Polylactide Coatings Enabled by Hydrophobic Deep Eutectic Solvents Plasticization - PubMed Central (NCBI, NIH)
  4. Interpretation of DIN EN 204 / DIN EN 205 (Düsseldorf, October 2017) - Industrieverband Klebstoffe e.V. (IVK)
  5. Waterborne Random Copolymers as Polymeric Surfactants for Emulsion Polymerization - PubMed Central (NCBI, NIH)